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Dados Epidemiológicos e Sorológicos Sobre a Incidência da Gripe Asiática em Porto Alegre*

Epidemiological and Serological Data on the Incidence of the Asian Flu in Porto Alegre

Autores: Newton Neves da Silva
Assuntos: Influenza humana; Estatísticas de saúde; Porto Alegre

Ao observar a evolução da epidemia de gripe que teve origem em abril de 1957 em Singapura e daí espalhou-se pelo globo, os técnicos em epidemiologia previram fosse o Brasil atingido pela mesma na primeira quinzena de setembro. Mas, já em meados de agosto, tinha-se notícia de um surto gripal em Uruguaiana, cidade limítrofe com a Argentina, e, de material colhido no dia 15 do mesmo mês, foram isoladas três amostras de vírus da influenza que, nas provas de inibição de hemaglutinação, mostram-se idênticas à raça A/Japão/305/57. O mesmo vírus foi isolado em Porto Alegre, de material colhido a 1° de setembro. Dezessete amostras de vírus da influenza, todos com comportamento sorológico idêntico ao tipo já referido, foram obtidas pela inoculação em ovos embrionados do material colhido da naso-faringe de 73 pacientes.

Pelos informes epidemiológicos, o surto de gripe asiática atingiu Porto Alegre na segunda quinzena de agosto. O número de casos foi aumentando, atingiu o clímax no período de 20 a 30 de setembro, entrando em declínio nos primeiros dias de outubro. Os casos notificados à Secção de Epidemiologia do Departamento Estadual de Saúde, no período de 15 de agosto a 31 de outubro, elevaram-se a 43754, com 30 óbitos.

A verificação da extensão da epidemia, entretanto, se baseada tão somente nas comunicações às autoridades sanitárias, resultará em dados falsos, muito aquém da realidade, devido a duas causas principais: 1° - a falta de notificação por parte dos médicos. 2° - a benignidade da doença, permitindo que grande número de pacientes não solicitasse serviços médicos, limitando-se ao tratamento sintomático com antitérmicos e analgésicos, tão largamente anunciados naquela época.

Para que tivéssemos dados mais próximos da realidade, efetuamos um levantamento domiciliar em amostras representativas da população e um inquérito sorológico para pesquisa de anticorpos específicos.



I - Levantamento Domiciliar

Este inquérito foi realizado por um grupo de 24 assistentes-sociais, educadoras sanitárias e alunas da Escola de Enfermagem, aproveitando a divisão da cidade determinada pelas áreas de atividade de cada Centro de Saúde. Foram percorridas todas as zonas, visitando domicílios escolhidos ao azar, sendo anotadas apenas suas condições econômicas, já que devia ser feito o levantamento em um maior número de residências de nível médio, ao qual pertence a população dominante na cidade. As pessoas que adoeceram de influenza foram classificadas por grupos etários.

O quadro I mostra os resultados desse levantamento domiciliar. Os grupos A, B e C correspondem a residências de alto, médio e baixo nível econômico.

II - Inquérito Sorológico

Como o vírus A/Ásia/57 constitui uma unidade sorológica, não havendo reação imunológica cruzada com os outros tipos ou subtipos de vírus da influenza (1), a pesquisa de anticorpos específicos é uma prova segura para verificar o número de pessoas infectadas, independentemente de terem ou não apresentado sintomas da moléstia. De outro lado, a pesquisa sorológica em quatro meses consecutivos permite observar a duração dos anticorpos específicos na população, o que revelaria uma maior ou menor resistência a futuras infecções pelo mesmo vírus.

Material e método de estudo

Para a pesquisa de anticorpos específicos usamos a técnica recomendada pelo "Committee on Standart Serological Procedures in Influenza Studies" (2), com os seguintes pormenores:

a)  Vírus - usamos como antígeno uma raça por nós isolada e identificada frente ao soro padrão A/Japão/305/57 e que denominamos amostra 54. Preferimos esta amostra em detrimento da A/Japão/305/57 e da A/Formosa/313/57 por ser a que nos deu sempre um teor de 400 a 500 unidades hemaglutinantes (CCA) por ml. O vírus foi passado em ovos embrionados de 11 dias. O líquido alantóide foi colhido depois de 48 horas, diluído a ¼ em salina tamponada, adicionado de mertiolato a 1:10 000, titulado e conservado no refrigerador como antígeno de estoque.

b)  Soros - os 1201 soros examinados eram de amostras de sangue enviados à Secção de Sorologia para Reação de Wassermann, provenientes dos Centros de Saúde da cidade. No dia da chegada ao laboratório os soros eram separados e conservados no "freezer" até o momento da prova.

c)  Inibição da Hemaglutinação - a técnica que empregamos pode ser resumida como segue: as hemácias de galinha eram suspensas a 0,5% em salina tamponada, pH 7,2. A suspensão de vírus empregada continha 4 unidades hemaglutinantes. A destruição dos possíveis inibidores inespecíficos foi feita com tripsina e periodato de potássio. A tripsina era preparada diariamente em solução a 0,4%, em salina tamponada, pH 8,2 (Tripsina Difco 1:250); a 0,5 ml. Desta solução adicionava-se outro tanto de soro em exame e levava-se ao banho-maria a 56º C durante 30 minutos para permitir a ação da tripsina e, após, sua inativação. A solução salina periodatada era preparada misturando-se 2 volumes de periodato de potássio M/90 com um volume de salina. Após 12 a 18 horas de repouso em refrigerador eram acrescentados 2 volumes de salina glicerinada a 1%. Os soros eram então diluídos nesta salina periodatada. A leitura era feita depois de uma permanência de 60 minutos à temperatura ambiente, por meio de um espelho côncavo. Só foram anotados os tubos que apresentaram uma inibição total da hemaglutinação. Foram considerados positivos os soros reagentes ao título de 1/10 para cima.

No quadro II apresentamos os resultados das provas de inibição da hemaglutinação.



Comentários

O levantamento domiciliar mostrou que, no período em estudo, 34% da população adoeceu de influenza, ou seja, 170.000 casos ocorreram em Porto Alegre.

A amostragem separada de cada zona sanitária da cidade pode constituir-se numa repetição do inquérito. E a concordância de seus resultados aumenta-lhe o valor estatístico.

Sem se afastar das características epidemiológicas dos países onde a epidemia fez sua penetração, o surto de influenza em Porto Alegre evoluiu de acordo com o esperado pelas autoridades sanitárias, isto é, atingiu um terço da população, predominou nas pessoas de baixo nível econômico, com grande incidência em crianças.

Enquanto o levantamento domiciliar mostrou que 34% da população adoeceu de gripe asiática, o inquérito sorológico revelou que 54% foi infectada com o vírus. Portanto 20% dos habitantes fizeram uma infecção subclínica, assintomática, traduzida apenas pela presença no soro de anticorpos específicos.

Nossos resultados confirmam os de outros pesquisadores no referente ao baixo título de anticorpos nas pessoas infectadas (1). Apesar de fazermos diluições até 1/320 o título máximo que encontramos foi de 1/80.

A distribuição mensal dos soros reagentes mostra claramente que, após um máximo de positividade em outubro (54,2%), houve um declínio no mês de dezembro (44,6%).

Da mesma forma observamos leve queda na frequência de sôros com alto conteúdo de anticorpos (títulos 1/40 e 1/80) pois, enquanto em outubro e novembro 13% dos soros atingiram tais títulos, em dezembro esta cifra baixou a 8%.

AGRADECIMENTOS

Deixamos nossos agradecimentos às assistentes-sociais, educadoras sanitárias e alunas da Escola de Enfermagem que realizaram o levantamento domiciliar, ao Dr. Ruben Markus que fez o estudo estatístico e ao Dr. Hélio Markus que nos auxiliou nas provas de inibição da hemaglutinação.

BIBLIOGRAFIA

1 JENSEN, K. E. - A new Set of Type A Influenza Virus. - J. A. M. A. 164 (18): 2025, 1957.
2 Committee on Standard Serological Procedures in Influenza Studies - An Agglutionation-inhibition Test proposed as a Standard of Preference in Influenza Diagnostic Studies. - J. Immun. 65 (3), 347, 1950.


* Artigo publicado conforme original
SILVA, Newton Neves da. Dados epidemiológicos e sorológicos sobre a incidência da gripe asiática em Porto Alegre. O Hospital, Rio de Janeiro, v. 53, n. 6, p. 137-141, jun. 1958.

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Anexos
Boletim de Saúde - ESP/RS